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Instabilidade em obra de reconstrução na Avenida Beira-Rio levanta questionamentos técnicos sobre as condições do terreno
Por Administrador
Publicado em 25/06/2026 09:42
Ubá em pauta
Imagem criada por IA

 O surgimento de uma abertura de grandes proporções no pavimento em um trecho da Avenida Beira-Rio, próximo ao Márcio's Frios, onde estão sendo executadas as obras de reconstrução da margem do rio após a enchente de fevereiro de 2026, chamou a atenção de moradores, comerciantes e trabalhadores da região.

O episódio também passou a suscitar questionamentos técnicos sobre as condições do terreno, os estudos que antecederam a intervenção e os possíveis impactos da ocorrência sobre o cronograma da obra.

Segundo informações apuradas pela reportagem, o pavimento cedeu durante a execução dos serviços, formando uma abertura na pista. Funcionários que atuam na obra relataram que a intercorrência poderá provocar atrasos no cronograma inicialmente previsto. Os relatos, entretanto, não representam manifestação oficial da empresa responsável pela execução dos serviços.

A Prefeitura de Ubá informou, por meio de nota, que acompanha tecnicamente a situação por intermédio da Secretaria Municipal de Obras.

De acordo com a administração municipal, a abertura observada está relacionada às características geotécnicas do terreno.

"De acordo com a equipe de engenharia responsável e com o secretário de Obras, a abertura observada no trecho está relacionada às características geotécnicas do terreno, que possui camadas com presença de solo argiloso e arenoso, condição que pode apresentar instabilidade e movimentações durante a execução de intervenções de contenção."

A Prefeitura acrescentou que o cronograma da obra permanece mantido e que a interdição preventiva do trânsito foi realizada antecipadamente justamente em razão das particularidades do terreno.

"O fechamento preventivo do trânsito nas áreas em obras foi realizado antecipadamente justamente considerando as particularidades do solo e a possibilidade de ocorrências como recalques, erosões ou deslocamentos de material, reduzindo riscos para motoristas, pedestres e trabalhadores."

Entenda: o que é um muro de gabião?

O muro de gabião é uma estrutura de contenção formada por caixas metálicas preenchidas com pedras. Esse tipo de solução é amplamente utilizado em margens de rios para conter processos erosivos, estabilizar taludes e proteger vias públicas e edificações próximas.

Entre suas principais características estão a capacidade de drenagem da água e a adaptação a pequenos deslocamentos do terreno, o que o torna uma solução frequentemente empregada em obras de infraestrutura hidráulica e recuperação de áreas atingidas por enchentes.

Diferentemente dos muros convencionais de concreto, estruturas em gabião são projetadas para permitir a drenagem da água e acomodar pequenas movimentações do terreno sem perda imediata de estabilidade.

Estudos prévios são parte essencial de obras de contenção

Conforme práticas consagradas da engenharia civil e da geotecnia, obras de contenção executadas às margens de rios, em regra, são precedidas por estudos técnicos destinados a caracterizar o terreno e definir a solução construtiva mais adequada às condições encontradas.

Entre os levantamentos habitualmente empregados em projetos dessa natureza estão:

  • levantamento topográfico da área;
  • investigação geotécnica por meio de sondagens do solo;
  • relatórios de sondagem à percussão (SPT), utilizados para avaliar a resistência e as características das camadas do terreno;
  • identificação do nível do lençol freático;
  • estudos hidrológicos e hidráulicos;
  • análise de estabilidade dos taludes;
  • levantamento cadastral de interferências existentes, como galerias, tubulações e outras estruturas subterrâneas;
  • projeto estrutural da contenção;
  • projeto executivo detalhando a metodologia construtiva.

Esses estudos fornecem subsídios técnicos para o dimensionamento da obra, permitindo identificar a composição do solo, a resistência das diferentes camadas, o comportamento do lençol freático e outros fatores capazes de influenciar a estabilidade da estrutura durante e após a execução da intervenção.

Solo argiloso e arenoso exige planejamento compatível

A nota da Prefeitura informa que o terreno apresenta camadas de solo argiloso e arenoso.

Na engenharia geotécnica, a presença desses materiais não é incomum em margens de cursos d'água. A complexidade da obra depende de diversos fatores, como a espessura das camadas, o grau de compactação do solo, a profundidade do lençol freático, a intensidade dos processos erosivos e as características da fundação projetada para a contenção.

Em linhas gerais, solos argilosos tendem a reter maior quantidade de água e podem sofrer deformações ao longo do tempo, enquanto solos arenosos apresentam maior permeabilidade e podem perder resistência quando saturados. Em projetos dessa natureza, essas características costumam ser consideradas na definição da metodologia construtiva e das medidas de estabilização mais adequadas.

Enchentes podem alterar significativamente o comportamento do terreno

A obra integra o conjunto de intervenções realizadas após a enchente de fevereiro de 2026, evento que provocou danos expressivos em diversos pontos da cidade.

Segundo a literatura técnica e as boas práticas adotadas nas áreas de engenharia geotécnica e engenharia de fundações, eventos hidrológicos de grande intensidade podem modificar as condições do terreno, provocando erosões superficiais e subterrâneas, remoção de material de fundação, alteração do nível do lençol freático e mudanças na estabilidade das margens dos rios.

Nesse contexto, projetos de reconstrução costumam considerar não apenas as características naturais do solo, mas também os impactos deixados pelo evento climático que motivou a intervenção.

Intercorrências podem ocorrer durante a execução

Mesmo quando um projeto é elaborado com base em estudos técnicos adequados, obras de infraestrutura dessa natureza podem apresentar intercorrências durante sua execução.

Entre as situações que podem surgir estão a identificação de bolsões de solo muito mole, vazios subterrâneos, tubulações antigas não mapeadas, recalques localizados, erosões internas ou outras condições que somente se tornam evidentes durante as escavações.

Dessa forma, o surgimento de uma instabilidade durante a execução da obra, isoladamente, não permite concluir pela existência de falha de projeto, erro de execução ou deficiência na fiscalização.

Por outro lado, a ocorrência desperta questionamentos técnicos legítimos.

De modo geral, conforme as práticas adotadas na engenharia, projetos executivos dessa natureza costumam considerar previamente as características geotécnicas identificadas durante os estudos realizados na fase de planejamento.

Se, entretanto, durante a execução forem identificadas condições diferentes daquelas previstas nos estudos iniciais, pode haver necessidade de adequações na metodologia construtiva, revisões de projeto ou outras medidas técnicas compatíveis com a nova realidade encontrada.

A confirmação ou o afastamento dessas hipóteses depende da análise dos documentos técnicos produzidos para a obra, dos registros da fiscalização, dos eventuais laudos elaborados após a ocorrência e das revisões eventualmente realizadas durante a execução.

Cronograma

Enquanto funcionários que atuam no local relataram a possibilidade de atraso na execução dos serviços, a Prefeitura de Ubá afirma oficialmente que o cronograma permanece mantido.

Até o momento, a administração municipal não anunciou qualquer revisão oficial dos prazos previstos para a conclusão da obra.

A divergência entre as informações poderá ser esclarecida à medida que a avaliação técnica da área for concluída e novos comunicados forem divulgados.

Transparência

Por envolver recursos públicos destinados à reconstrução da cidade após a enchente de fevereiro de 2026, documentos como os estudos geotécnicos, os relatórios de sondagem à percussão (SPT), projetos executivos, memoriais descritivos, Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) — documentos que identificam os profissionais legalmente responsáveis pelos serviços de engenharia —, ordens de serviço, pareceres da fiscalização municipal, relatórios da fiscalização da obra, diário de obras, boletins de medição, eventuais termos aditivos e revisões de projeto constituem importantes instrumentos de acompanhamento técnico, administrativo e financeiro.

A análise desses documentos poderá esclarecer se a instabilidade observada fazia parte dos riscos previstos para esse tipo de intervenção, se exigirá adaptações técnicas durante a execução ou se haverá necessidade de alterações no cronograma, no projeto ou no contrato da obra.

Até o momento, a Prefeitura de Ubá sustenta que a ocorrência decorre das características naturais do terreno e informa que acompanha tecnicamente a situação por meio da Secretaria Municipal de Obras, mantendo a previsão de continuidade dos trabalhos.

O que ainda precisa ser esclarecido

Entre os principais pontos que ainda podem ser esclarecidos ao longo da execução da obra estão:

  • Foram realizadas avaliações técnicas da ocorrência?
  • Foram realizados estudos geotécnicos específicos para o trecho onde ocorreu a instabilidade?
  • Houve necessidade de revisar o projeto executivo após a instabilidade registrada na obra?
  • A empresa responsável elaborou ou elaborará laudo técnico sobre a ocorrência?
  • A fiscalização municipal registrou formalmente o episódio e apontou as providências adotadas?
  • O cronograma será mantido ou haverá necessidade de prorrogação dos prazos?
  • A ocorrência terá impacto sobre os custos da obra ou demandará termos aditivos ao contrato?

Acompanhamento da reportagem

A equipe de jornalismo continuará acompanhando o andamento da obra. Novas informações e eventuais esclarecimentos oficiais serão incorporados a esta matéria à medida que forem oficialmente disponibilizados pelos órgãos responsáveis e pela empresa executora dos serviços.

 

Edição: Geane Nicácio – Multisom Ubaense

 

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