Carnaval de Ubá 2026 consolida modelo centralizado, amplia controle de segurança e evidencia crise com escolas de samba e blocos tradicionais
O Carnaval de Ubá em 2026 será lembrado como o ano da mudança estrutural no formato da festa. A implantação do circuito oficial na Avenida Sebastião Valoz David, defendida pela Prefeitura e pelas forças de segurança como estratégia para prevenção da violência e monitoramento por tecnologia, redefiniu a ocupação do espaço público e provocou efeitos diretos sobre escolas de samba e blocos tradicionais.
O novo modelo garantiu controle de acesso, forte presença policial, mas também produziu cancelamentos de agremiações históricas, conflitos operacionais e uma sequência de falhas logísticas que marcaram principalmente o pré-carnaval das escolas de samba.
Planejamento técnico e centralização da festa
As decisões foram construídas nas reuniões realizadas entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, com participação de representantes da Prefeitura, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil e dirigentes das agremiações.
O eixo central foi a concentração total das atividades na avenida para permitir:
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monitoramento integral pelo sistema Olho Vivo
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controle de fluxo de foliões
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resposta rápida a ocorrências
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aplicação de inteligência policial
Para os blocos fora do circuito oficial, passaram a ser exigidos termos de responsabilidade civil e estrutura própria de segurança, o que levou ao cancelamento de grupos tradicionais como Piranhas, Alvorada e Quem Fez Fez.
O Decreto nº 7.670 e o esvaziamento do carnaval de bairro
A publicação do decreto que proibiu som mecânico em vias públicas fora das áreas autorizadas inviabilizou o formato descentralizado da festa e foi alvo de críticas por restringir manifestações espontâneas.
Na prática, o carnaval de rua nos bairros deixou de existir em 2026.
Escolas de samba enfrentam atraso extremo e desorganização operacional
O pré-carnaval, realizado nos dias 7 e 8 de fevereiro, expôs o problema mais grave de toda a programação: o atraso sucessivo dos desfiles.
A escola Feliz Lembrança teve sua entrada postergada por mais de duas horas, provocando um efeito em cadeia em toda a ordem de apresentação.
Como consequência direta:
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a Império da Vila Casal entrou na avenida por volta de 2h30 da madrugada
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grande parte do público já havia deixado o local
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componentes desfilaram para arquibancadas praticamente vazias
O atraso comprometeu:
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o desempenho das agremiações
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a avaliação do público
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a visibilidade das escolas
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o esforço financeiro e humano dos integrantes
O problema foi amplamente criticado por dirigentes e por lideranças do carnaval, que classificaram o episódio como falta de planejamento e desrespeito às comunidades envolvidas.
Em nota, a AESBU reconheceu falhas técnicas e operacionais e afirmou que fará revisão completa do modelo para 2027.
Subvenção insuficiente agravou as dificuldades
A divisão da subvenção total de R$ 160 mil entre sete escolas resultou em cerca de R$ 9.500 líquidos por agremiação após os custos fixos.
O valor foi considerado insuficiente para:
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estruturas metálicas
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alegorias
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fantasias
O cenário financeiro limitou a capacidade estética e operacional dos desfiles.
O caso Treme Terra e o conflito no circuito oficial
O momento de maior tensão ocorreu no domingo de Carnaval com o bloco Treme Terra, impedido de utilizar trio elétrico e sonorização.
Autorizado a seguir apenas em silêncio, o bloco não conseguiu realizar a homenagem prevista à advogada Ana Teresa, cadeirante, devido à sobreposição do som do palco oficial.
Vídeos registram críticas à ausência de representantes do poder público para mediação do impasse.
A direção do bloco afirma que houve descumprimento do que havia sido pactuado nas reuniões preparatórias.
Segurança reforçada e ações de fiscalização
A Operação Blindagem Carnaval 2026 manteve:
Durante as fiscalizações, houve prisão de foragido da Justiça pela Polícia Ambiental.
A Polícia Civil também realizou campanhas contra a importunação sexual.
Economia aquecida e nova configuração da festa
O circuito oficial concentrou:
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praça de alimentação
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estrutura de shows
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comércio ambulante
Com movimentação ao longo dos dias de programação.
Cidade dividida entre segurança e tradição
A percepção pública revela dois sentimentos predominantes:
Aprovação
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sensação de segurança
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ambiente familiar
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organização do espaço
Crítica
Repercussão política e institucional
O Partido dos Trabalhadores de Ubá criticou o modelo, defendendo políticas permanentes de inclusão cultural nas comunidades.
A Prefeitura mantém o posicionamento de que o formato prioriza a preservação da vida e a convivência familiar.
Um carnaval de transição
O Carnaval 2026 marca a passagem de um modelo popular descentralizado para um formato técnico, monitorado e concentrado.
Ao mesmo tempo em que ampliou o controle e reduziu riscos, o novo sistema expôs:
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fragilidade financeira das escolas de samba
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falhas graves de logística
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ruptura com blocos tradicionais
O debate para os próximos anos passa, inevitavelmente, pela reconstrução do diálogo entre poder público e as comunidades que historicamente sustentam o carnaval ubaense.
Fontes:
Angela Zamboni – Ubá: Notícias do Angu com Caroço
AESBU – Associação e Liga das Escolas de Samba e Blocos de Ubá
Prefeitura Municipal de Ubá
Edição: Geane Nicácio – Multisom Ubaense