Um levantamento nacional baseado em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) acende um alerta: uma em cada três crianças e adolescentes brasileiros, entre 10 e 19 anos, apresenta excesso de peso. O estudo, que analisou registros do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), mostra que, em dez anos, o índice cresceu quase 9%.
Segundo os números, 2,6 milhões de jovens vivem com algum grau de sobrepeso. Do total, 1,54 milhão apresentam excesso moderado, 840 mil já têm obesidade diagnosticada e outros 237 mil enfrentam obesidade grave. Especialistas ouvidos destacam que essa condição, cada vez mais precoce, amplia o risco de doenças crônicas como diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares e até distúrbios do sono.
Realidade das famílias
O comerciante Darlan Wagner, do Pará, viveu de perto o drama das estatísticas. O filho desenvolveu compulsão alimentar e, aos 13 anos, pesava mais de 100 quilos, além de apresentar colesterol elevado e diabetes.
— “Eu vi meu filho desaparecer. Tentamos ajudar, mas ele já escondia comida no quarto e tinha doenças de adulto. Quando pediu de presente de aniversário uma cirurgia bariátrica, entendemos a gravidade”, relata.
Casos como esse refletem a mudança nos hábitos alimentares e de vida. O alto consumo de ultraprocessados, como macarrão instantâneo, biscoitos recheados e refrigerantes, somado ao tempo excessivo em frente às telas e ao sedentarismo, compõe o cenário descrito pelos pesquisadores.
Diferenças regionais
O problema atinge todas as regiões, mas em intensidade desigual. O Sul concentra os maiores índices, com 37% dos adolescentes acima do peso. O Norte registra a menor taxa, 27%. Entre os estados, Ceará, Rondônia e Rio Grande do Norte tiveram as maiores altas na última década. Apenas Roraima reduziu o índice em 1%.
Entre as capitais, São Paulo lidera com 76 mil jovens acima do peso, seguida de Rio de Janeiro (64 mil) e Manaus (43 mil).
Vozes da ciência
Para Fernanda Soares, especialista em saúde pública e integrante da pesquisa, a obesidade infantil é um desafio que ultrapassa a questão clínica.
— “O cenário reflete mudanças nos hábitos, sedentarismo e desigualdades regionais. O impacto é também econômico: aumenta custos futuros com doenças crônicas e compromete a qualidade de vida dessa população”, afirma.
A endocrinologista Maria Fernanda Barca, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), reforça que os hábitos familiares são determinantes.
— “A infância reproduz os maus hábitos dos adultos. Comida ultracalórica está acessível e a atividade física deixou de ser prioridade. Estamos vendo doenças graves aparecerem cada vez mais cedo”, alerta.
Caminhos para mudança
Neste ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) ampliou as regras da cirurgia bariátrica, permitindo o procedimento a partir dos 14 anos, medida que busca atender uma demanda crescente de adolescentes em situação crítica. Médicos ressaltam, contudo, que a cirurgia deve ser a última alternativa, após acompanhamento nutricional, psicológico e clínico.
Especialistas são unânimes em afirmar que o enfrentamento da obesidade exige políticas públicas robustas, envolvendo desde educação alimentar até estímulo à atividade física nas escolas.
— “O problema é de saúde pública, com reflexos sociais e econômicos. Sem ação coordenada, teremos uma geração de adultos com mais doenças e menos qualidade de vida”, conclui Fernanda Soares.
Fonte: G1